Aula Extra - A Natureza dos Relacionamentos no Cronograma

Academia do Planejamento
Prof. Sérgio Magalhães
📋 Material Complementar · Primavera P6

A Natureza dos Relacionamentos no Cronograma

Além do FS, SS, FF e SF — por que algumas sequências são impostas pela realidade e outras são escolha do planejador

Introdução

🧱 A fôrma e o concreto — uma sequência que não se discute

Imagine que você está planejando a concretagem de um pilar. Você cria no P6: Montar Fôrma → Lançar Concreto. Alguém da equipe pergunta: "Por que essa ordem?". A resposta é óbvia — porque é física. Sem fôrma, não há onde o concreto assentar. Não tem alternativa, não tem inversão possível.

Agora imagine dois apartamentos no mesmo pavimento para pintar. Você sequencia: Apartamento A → Apartamento B. Por que essa ordem? Porque alguém decidiu assim — mas poderia muito bem ser o B primeiro. Nenhuma lei da física exige essa sequência.

A pergunta que todo planejador precisa saber responder

Quando você cria um relacionamento no Primavera P6, você sabe dizer por que aquela sequência existe? Essa resposta revela a natureza do relacionamento — e isso muda completamente o que você pode ou não pode fazer com ele quando o prazo apertar.

Neste material complementar às videoaulas, vamos explorar as três naturezas possíveis de um relacionamento entre atividades: obrigatóriodiscricionárioexterno. Veremos também dois problemas que afetam diretamente a qualidade da rede lógica: os relacionamentos redundantes e os loops. Esses conceitos valem para qualquer tipo de ligação (FS, SS, FF ou SF) — pois tratam do motivo do relacionamento, não da sua mecânica.

Visão geral — as três naturezas de um relacionamento
Desenvolvimento

As três naturezas de um relacionamento

1Relacionamentos obrigatórios — a ordem que a realidade impõe

Um relacionamento obrigatório existe quando a natureza do próprio trabalho define a sequência. Não importa quem é o planejador, qual é a empresa, qual é o país ou o contrato: a ordem simplesmente não pode ser diferente — porque a física, a química, a engenharia ou o processo construtivo não permitem.

📘 PMBOK 6ª edição — Seção 6.3.2.2

O Guia PMBOK define as dependências obrigatórias como aquelas "inerentes à natureza do trabalho sendo realizado" e que frequentemente envolvem limitações físicas. O próprio Guia apresenta a concretagem após a fôrma como exemplo clássico. Essas dependências também são chamadas de hard logic (lógica dura), pois não podem ser alteradas sem violar a integridade técnica do projeto.

As dependências obrigatórias são aquelas requeridas legal ou contratualmente, ou inerentes à natureza do trabalho.
— Project Management Institute, PMBOK Guide, 6ª edição
Exemplo — Sequência obrigatória: etapas de concretagem de um pilar
Mais exemplos de hard logic em projetos EPC
Como reconhecer um relacionamento obrigatório

Faça a pergunta: "Existe alguma maneira, em qualquer circunstância, de executar B antes de A?". Se a resposta for não — e esse "não" for técnico, não uma convenção ou preferência —, você está diante de um relacionamento obrigatório. Não o questione em compressões: ele sempre existirá naquele cronograma.

A rede lógica de um cronograma deve refletir a realidade construtiva, não as preferências do planejador. Confundir hard logic com soft logic é a origem de cronogramas irreais.
— John Butts, especialista em análise de cronogramas e DCMA

2Relacionamentos discricionários — a ordem que o planejador escolhe

Um relacionamento discricionário — chamado na literatura de soft logic — existe quando não há impedimento técnico ou físico para inverter a sequência, mas o planejador, por razões operacionais, escolhe uma ordem específica.

Esses relacionamentos surgem de estratégias de execução, de preferências de fluxo de trabalho, de decisões de mobilização de equipe, de restrições de acesso ou de otimização de recursos — e não de leis da natureza.

📘 PMBOK 6ª edição — Seção 6.3.2.2

O PMBOK define as dependências discricionárias como aquelas estabelecidas com base em conhecimentos de melhores práticas numa área de aplicação específica ou em algum aspecto ímpar do projeto. Essas dependências são designadas preferências, sendo que "podem mudar se necessário" — e por isso são chamadas de soft logic (lógica suave).

Exemplo — Sequência discricionária: pinturas que poderiam acontecer em paralelo
Por que isso importa quando o prazo aperta

Relacionamentos discricionários são os primeiros candidatos à revisão quando o cronograma precisa ser comprimido. A técnica de fast tracking — paralelizar atividades que estavam em sequência — funciona exatamente sobre esses relacionamentos. Se você tratar uma soft logic como hard logic, estará fechando portas de aceleração que não precisavam estar fechadas.

Fast Tracking — aplicado sobre relacionamentos discricionários
Cronogramas superlotados de lógica suave transformada em lógica dura são o maior inimigo do gerenciamento de prazos. O planejador que não sabe distinguir as duas está construindo uma armadilha para si mesmo.
— Kim Lovejoy, consultora de schedule analysis e controles de EPC

3Relacionamentos externos — a ordem que o mundo impõe

Existe ainda uma terceira natureza: o relacionamento externo. Ele ocorre quando a sequência é imposta por um fator que está fora do controle do projeto — uma aprovação regulatória, um fornecedor, outro projeto, uma licença ambiental, uma entrega contratual.

📘 PMBOK 6ª edição — Seção 6.3.2.2

O PMBOK descreve as dependências externas como aquelas que envolvem um relacionamento entre atividades do projeto e atividades fora do projeto. Geralmente estão fora do controle da equipe — como uma entrega de equipamento por fabricante, aprovação por órgão governamental ou ação de terceiros. Devem ser explicitadas no cronograma para que seu impacto sobre o caminho crítico seja rastreável.

Exemplo — Relacionamentos externos representados como marcos no P6
Boas práticas para relacionamentos externos no P6

Crie sempre um marco (milestone) para o evento externo — licença aprovada, equipamento entregue, energização pela concessionária. Conecte esse marco com a atividade dependente. Qualquer atraso externo aparece imediatamente no caminho crítico e pode ser comunicado formalmente ao cliente como impacto não controlável pela equipe do projeto.


4Relacionamentos redundantes — a seta desnecessária

Um relacionamento redundante — também chamado de relacionamento transitivo — é aquele que já está implicitamente satisfeito pela cadeia de outros relacionamentos existentes. Ele não acrescenta informação lógica nova à rede, mas ocupa espaço, complica a visualização e pode mascarar erros reais.

O exemplo mais simples: se A → B e B → C, então a seta A → C é redundante. O P6 já sabe que A precisa terminar antes de C por meio de B — a seta direta não muda nada no cálculo, mas polui a rede.

Relacionamento redundante — a seta A → C não acrescenta nada
Por que relacionamentos redundantes são um problema

Além de poluir a rede, relacionamentos redundantes podem mascarar erros de lógica: se a seta A→C redundante for a única seta "válida" após uma edição incorreta que remove B→C, o cronograma parece correto mas a lógica construtiva está errada. Em auditorias DCMA, redes com alto índice de redundância recebem penalidade na avaliação de qualidade do cronograma.

Um cronograma com muitas setas redundantes é como um texto cheio de palavras desnecessárias — o sentido pode até estar lá, mas a clareza se perde e os erros se escondem.
— David Hulett, especialista em análise de risco e qualidade de cronogramas

A boa prática é manter a rede com o mínimo necessário de relacionamentos para expressar a lógica construtiva completa. Cada seta deve existir porque sem ela a rede ficaria logicamente incorreta — e não apenas porque parece "mais seguro" tê-la.


5Loops — quando a rede vira um círculo sem saída

Um loop (ou ciclo) ocorre quando um conjunto de relacionamentos cria uma cadeia circular: A depende de B, B depende de C, e C depende de A. Isso torna o cálculo do cronograma matematicamente impossível — nenhum dos três pode ser calculado porque todos dependem uns dos outros.

O Primavera P6 detecta loops durante o processo de cálculo (schedule) e emite um alerta no log. Atividades envolvidas em loops não recebem datas calculadas e aparecem marcadas no relatório de cálculo como "out of sequence" ou com erros específicos de relacionamento.

Loop de relacionamentos — o P6 não consegue calcular essa rede
Como loops surgem na prática

Loops raramente são criados intencionalmente. Eles aparecem quando um planejador, ao criar uma dependência nova, não percebe que já existe um caminho indireto na direção contrária. Em projetos grandes, com centenas ou milhares de atividades, é fácil perder o rastro. Por isso, sempre que o P6 emitir aviso de "loop" no log de cálculo, pare e corrija antes de qualquer outra coisa.

Corrigindo o loop — identificar a seta incorreta e remover
  • 1
    Calcule o cronograma e leia o logNo P6: Tools → Schedule → marque "Log to file". O log listará todas as atividades envolvidas no loop.
  • 2
    Identifique a cadeia circularTrace manualmente (ou com a skill V05 da Academia) o caminho entre as atividades do log. Encontre qual seta fecha o ciclo.
  • 3
    Remova a seta incorretaGeralmente é uma seta criada por engano ou que inverte uma relação que deveria ir em sentido contrário. Remova e recalcule.
  • 4
    Verifique se há outros loopsEm projetos complexos, podem existir múltiplos loops. Repita o cálculo até o log estar limpo de avisos de ciclo.
Critério DCMA 14-Point Assessment

O critério DCMA (Defense Contract Management Agency) exige zero loops no cronograma. Qualquer loop identificado gera inconformidade imediata na auditoria, independente do tamanho do projeto ou do número de atividades afetadas.

Síntese

Resumo — o que você deve fixar

📌 Os cinco conceitos em uma tela

🟢 Obrigatório
Hard Logic — PMBOK 6ª ed.
  • Imposto pela física / engenharia
  • Não pode ser invertido
  • Não é candidato a fast tracking
  • Ex.: Fôrma → Concreto
🟠 Discricionário
Soft Logic — PMBOK 6ª ed.
  • Escolha do planejador
  • Pode ser invertido ou paralelizado
  • Primeiro alvo do fast tracking
  • Ex.: Apto A → Apto B (pintura)
🔵 Externo
External Logic — PMBOK 6ª ed.
  • Agente fora do projeto
  • Representar como marco no P6
  • Visível no caminho crítico
  • Ex.: Licença IBAMA → Obras
🟡 Redundante
Relacionamento transitivo
  • Já satisfeito por outro caminho
  • Polui a rede sem acrescentar
  • Penalidade em auditorias DCMA
  • Ex.: A→C quando A→B→C existe
🔴 Loop
Relacionamento circular
  • Cadeia A→B→C→A (circular)
  • P6 não consegue calcular
  • Critério DCMA: zero loops
  • Corrigir antes de qualquer análise
NaturezaPode inverter?Fast tracking?Problema gerado?Ação recomendada no P6
ObrigatórioNuncaNãoManter. Compressão só via duração
DiscricionárioSim, com riscoSimRede rígida artificialmenteJustificar em notas. Revisar na compressão
ExternoNão (depende de terceiro)NãoImpacto invisível no cronogramaCriar marco explícito no caminho crítico
RedundanteN/AN/APoluição da rede, erros ocultosRemover após confirmar que é transitivo
LoopN/AN/ACronograma não calculaIdentificar seta errada via log e remover
Prática

Exercícios

📝 Exercício 1Classifique a natureza

Para cada par de atividades abaixo, classifique o relacionamento como obrigatóriodiscricionário ou externo, e escreva em uma frase a justificativa:

  • Aplicar impermeabilização → Executar contrapiso
  • Instalar esquadrias do Bloco A → Instalar esquadrias do Bloco B
  • Obter aprovação do projeto estrutural (CREA) → Iniciar concretagem
  • Lançar concreto do pilar → Desformar o pilar
  • Executar tubulação trecho Norte → Executar tubulação trecho Sul
  • Entrega do cabo pelo fornecedor → Lançamento do cabo
Perceba que alguns pares dependem de contexto. Os trechos Norte e Sul podem ser obrigatórios (tubulação contínua) ou discricionários (trechos independentes com acesso separado). O raciocínio importa mais do que a classificação final.

📝 Exercício 2Caça ao redundante

Analise a rede abaixo e identifique o relacionamento redundante:

  • Escavação → Fundação (FS)
  • Fundação → Estrutura (FS)
  • Estrutura → Cobertura (FS)
  • Escavação → Estrutura (FS) ← este é o redundante?
  • Fundação → Cobertura (FS) ← ou este?

Identifique quais setas são redundantes, justifique e proponha a rede limpa final.

Desafio extra: pegue uma frente do seu cronograma real e aplique o mesmo raciocínio. Quantos relacionamentos redundantes você consegue identificar?

📝 Exercício 3Fast Tracking consciente

O cliente pediu uma redução de 15% no prazo. Liste 3 pares de atividades do seu projeto que hoje estão em sequência e que poderiam, com gestão de risco adequada, ser paralelizadas — porque o relacionamento entre elas é discricionário.

Para cada par, descreva também o risco associado ao paralelismo — porque fast tracking sempre aumenta o risco. A proposta de compressão precisa vir acompanhada da gestão de risco correspondente.

Lembre-se: você nunca pode propor fast tracking sobre um relacionamento obrigatório. Se o risco do paralelismo for inaceitável, a alternativa é a compressão de duração (crashing) — que aumenta custo, mas não compromete a lógica.

📝 Exercício 4Diagnóstico de loop no P6

Ao calcular um cronograma no Primavera P6, você recebe no log o seguinte aviso: "Loop detected: activities AT-0045, AT-0046, AT-0047".

Descreva o passo a passo que você seguiria para: (1) identificar qual relacionamento está criando o ciclo, (2) determinar qual seta está incorreta e (3) corrigir a rede sem perder a lógica construtiva das outras atividades.

Dica: a skill V05 da Academia do Planejamento automatiza a detecção de loops em arquivos .xer, listando todas as atividades envolvidas em ciclos e facilitando a identificação da seta problemática.
Academia do Planejamento
Prof. Sérgio Magalhães · Oracle Primavera P6 & Gestão de Projetos

Conteúdo

1Módulo 1 - Planejando com o Primavera P6 Professional

Agora que você já se familiarizou com algumas telas do Primavera, vou te mostrar como construir um projeto novo.
  • Como funciona o curso

    ASSISTIR

  • Aula 01 - Introdução ao Módulo Planejando

    00:49

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  • Aula 02 - File New Project I

    08:57
  • Aula 03 - File New Project II

    08:15
  • Aula 04 - Add Resources - I

    09:29
  • Aula 05 - Add Resources II

    06:45
  • Aula 06 - View Details

    06:34

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  • Aula 06 - View Details - Texto

    7 págs.
  • Aula 07 WBS

    09:37
  • Aula 08 - New Activitie I

    09:52
  • Aula 09 - New Activitie II

    11:48
  • Aula 10 - New Activitie III

    10:12
  • Aula 11 - Enterprise Calendar I

    09:45
  • Aula 12 - Enterprise Calendar II

    04:51
  • Aula 12 - Enterprise Calendar – III

    05:29
  • Aula 13 Relationships

    13:22
  • Aula 14 Relationships - II

    08:09
  • Aula Extra - A Natureza dos Relacionamentos no Cronograma

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  • Aula 15 - Total Float

    07:42

    ASSISTIR

  • Aula 16 - Add Resource - I

    06:31
  • Aula 17 - Add Resources - II

    05:13
  • Aula 18 - Add Resources - III

    05:58
  • Aula Extra - Diferenças entre Esforço e Recurso no Primavera P6

    ASSISTIR

2 Módulo 2 - Melhorando o Projeto

  • Aula 19 - Introdução ao Módulo

    01:42
  • Aula 20 - Constraints - I

    07:42
  • Aula 21 - Constraints - II

    05:38
  • Aula 22 - Activit Code - I

    09:04
  • Aula 23 - Activit Code - II

    06:40
  • Aula 24 - Activity Codes - Material de Leitura

    9 págs.
  • Aula 25 - Filter

    10:16
  • Aula 26 - Group and Sort

    07:39
  • Aula 27 Steps

    16:02
  • Aula 28 - User Defined Fields - I

    08:27
  • Aula 29 - User Defined Fields - II

    02:26
  • Aula 30 - Global Change - I

    07:35
  • Aula 31 - Global Change - II

    07:33

3Módulo 3 - Como trabalhar com BL

  • Aula 32 - Verificando o Projeto

    10:03
  • Aula 33 - Add Baseline

    07:02
  • Aula 34 - Update Baseline

    08:52

4Módulo 4 - Como dar Avanços

  • Aula 35 - Introdução ao Módulo Avançando

    01:12
  • Aula 36 - Type Duration I

    06:10
  • Aula 37 - Type Duration – II

    05:39
  • Aula 38 - Type Duration – III

    mult conteúdo

  • Aula 39 - Type Units

    13:26
  • Aula 40 Type Physical

    06:11

5Módulo 5 Como Criar Relatórios no Primavera P6

  • Aula 41 - Introdução ao Módulo de Relatórios

    01:59
  • Aula 42 - Curva S no Primavera P6

    09:48
  • Aula 43 - Report Wizard – I

    09:38
  • Aula 44 - Report Wizard – II

    06:09
  • Aula 45 Publish

    07:05
  • Aula 46 - Print Preview

    08:10
  • Aula 47 - Programação de Serviços

    07:50
  • Aula 48 - Histograma de Mão de Obra

    04:04
  • Parabéns

Excelente curso.

Valdemir Nascimento Fiuza

Curso prático direto ao ponto, aulas com a duração adequada para a compreensão do conteúdo, sugiro a utilização de um projeto único desenvolvido do começo ao fim, incluindo a montagem dos relatórios.

Leandro Felisberto A. Arcanjo

Aulas com tempo bom, e conteúdo explicativo legal, porém senti falta de exemplos mais robustos e condizentes com a realidade de mercado.

Lucas Vidal Lara

Gabriel Batista Monção

O Curso está excelente, muito bem explicado. Agora é arregaçar as mangas e trabalhar. Obrigada Sérgio pela dedicação e atenção.

Patricia de Oliveira Ribeiro

OTIMO

Leonardo Machado Neves

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